Ao me graduar, em 2017, no curso de Letras-Língua Portuguesa passei imediatamente a lecionar aulas particulares a domicilio. Entre os meses de setembro e novembro de 2018, passei a dar aula para uma garotinha que estava tendo muitas dificuldades na área das linguagens. Muito se reclamava dela por conta de sua falta de atenção e preguiça.
Sempre considerei que aprendemos melhor quando nos conectamos minimamente com quem ensina. Por conta disto, na primeira aula estabeleci uma dinâmica de diálogo com ela sobre a sua escola, sobre os assuntos que interessavam ela ou não gostava, principalmente para pensar as aulas.
No decorrer das aulas, percebi que a “preguiça” por muitos denominada se referia a uma intensa insegurança em suas capacidades. Durante as aulas, a aluno foi me narrando acontecimentos da escola como: como se sentia sozinha, como seu material era zombado, e casos claros de racismo.
Os pais intervieram em muitos desses casos. Contudo, o que percebi é que tais acontecimentos faziam com que ela tivesse sua autoestima ferida. Ela pediu para alisar o cabelo, porque o achava feio, dizia que sua cor não era bonita, em comparação aos outros.
Como professor, vendo estes relatos, utilizei os assuntos das provas para tentar mostrar a ela uma visão diferente sobre si, sobre as pessoas negras. O assunto era lendas e contos africanos o que veio a calhar, além de as atividades terem caído justamente no período da Consciência Negra na escola, o que possibilitou muitos diálogos sobre o assunto.
Mostrei a aula vários textos de personalidades negras, histórias dos negros no Brasil. Foi um processo lendo que percebi que a levou a aluna para uma segurança na hora das aulas, mais segurança em si. Ainda hoje, tenho aula com essa aluna e continuo enfatizando esse assunto algumas vezes, no momento que acho oportuno, com a parceria da mãe.
Percebe a forma com aquela criança via a si mesma me comoveu, pois sei que isso deixa marcas, inclusive no aprendizado. Fico feliz de como professor ter contribuído para que isso fosse amenizado.

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